segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Souza, Laura de Melo e. Religiosidade popular na colônia. In. O diabo e a terra de santa cruz. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das letras, 1995. p. 86-150.
O texto demostra um distanciamento gigantesco entre os dogmas e a religiosidade vivida. Um bispado em cem anos, não cumprimento das ordens eclesiais, ceticismo da população, padres que ignoravam as ordens do santo Ofício. Coroa portuguesa como patrona das missões católicas e instituições eclesiásticas em suas colônias, com os jesuítas como organizadores do catolicismo.
Havia relações politicas entre padres e a Igreja, tanto que no século XVII, Roma restringe a ação do padroado criando a congregação para a propagação da fé.
Diálogo com Gilberto Freyre Casa Grande- Senzala-Capela, especificidade familiar e sincretismo herético de Carlo Guinzburg.
O catolicismo era religião de fachada. Os cultos tinham traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturados condenando os colonos ao sincretismo religioso. Inconsciência religiosa, deturpação, desconhecimento completo dos dogmas, paganismos, aprendizagem catequética por memorização de poucos rudimentos religiosos, que não eram entendidos e após alguns anos esquecidos.
Deus era objeto de dúvidas e indagações. Havia descrença em Deus generalizada, utilização da fé como fornecedora de bens materiais, fornecedora de vantagens concretas ou tratamento de todos os males, como subterfúgio ao abarcamento de seus interesses, cometendo blasfêmias de todas as maneiras, até mesmo pelo mau viver dos padres. Muitos párocos vivam em regime de concubinato, eram sodomitas, ébrios, envolviam-se em brigas, rixas, jogatinas, crimes de todo tipo, desacatavam aos fiéis.
Os fiéis eram impacientes devido a curta duração da vida. A fé constantemente era posta em xeque, ‘justiça divina duvidosa e falha’. “Se Deus era o Criador a ser adorado, por que fizera a desigualdade social?” (p. 111).
Indistinção entre sagrado e profano traduzida na identificação e devoção aos santos. Familiarização com os santos. Crença judaica atrelada ao ceticismo. Explicação para tudo em Deus ou no diabo. Os colonos não tinham base científica que lhes explicasse os fenômenos, portanto tudo era explicado através de forças espirituais, sobrenaturais, metafísicas.
Completo desrespeito e desacato aos símbolos e ritos religiosos católicos. Havia muita ambiguidade, o que se ama às vezes se odeia, por uma economia religiosa de toma lá dá cá, quando se alcança a graça o amor se manifesta ao santo, quando não se alcança o esperado, xinga, atira-o nos cantos, odeia-o.
Demonização das ações humanas de ‘má vontade’ e divinização da aquisição de bens materiais. Tudo podia ser explicado pelo sagrado ou profano, pois sem uma razão sustentada na ciência, a Igreja dominava a mentalidade popular, porém com suas limitações conquanto à fé do povo. Menção ao padre Antonil como divinizador do produto mercantil gerador de lucros e bens.
Parecer do resenhista
A religiosidade colonial era extremamente falha em relação aos dogmas e preceitos religiosos católicos vigentes, mesmo porque a distância da Europa dificultava muito a repressão àqueles que se rebelassem contra a ordem religiosa. Mesmo os que eram pegos em atos heréticos às vezes não eram punidos por haver apenas um bispado em toda colônia durante mais de um século.
O carnaval também foi uma invenção dessa época, séc. XVI, onde os portugueses ‘fervorosos’ no catolicismo, quando defrontados com a quaresma, quarenta dias de privação de todos os prazeres carnais, montaram no calendário uma semana para extravasar nos deleites possíveis.
Indico este livro a todos que tenham interesse em conhecer um pouco sobre como os colonos se atinham às coisas sagradas, mediante a religiosidade vigente, o catolicismo.
Luiz Filipe de Alencastro
O trato dos viventes
O autor começa com o poder exercido por Carlos V, rei da Espanha, sobre a colônia peruana, que a partir de 1542-43 proclama as leyes nuevas reconhecendo a soberania dos índios, com o propósito de afirmar-se como emperador de muchos reyes. Porém os índios às vezes revoltavam-se contra a tributação da coroa, porém logo era contida a revolta e retomava-se a tributação.
Angola apresentou um conflito político semelhante, porém a Coroa portuguesa bate de frente e em 1551 concede como capitania hereditária a Paulo Dias Novais, neto de Bartolomeu Dias. Mas após o desastre de Alcácer Quibir (1578), o donatário concede aos conquistadores e jesuítas terras, nativos e rendas denominados amos. Nesses havia cobrança de tributos dos nativos (amumbundos) que, na maioria das vezes eram pagos com escravos que eram exportados para a América.
Ficando claro a Portugal que Angola não tinha minas de prata e que o trafico de escravos seria a principal atividade econômica, a coroa retoma a colônia em 1592 e determina um governador que, logo de cara, proíbe os amos. Mas essa medida é rechaçada logo de cara e os conquistadores, junto com os jesuítas, o expulsam em 10 meses. Porém, logo em seguida o rei de Portugal nomeia outro governador, que era “pau-mandado” dos jesuítas, que volta atrás na proibição dos amos. Anos depois a Coroa portuguesa toma o comando, e embora houvesse conflitos, Angola entra de vez no comércio transatlântico de escravos.
Angola é o principal porto exportador de escravos para a América nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, enquanto o Brasil é o maior importador de escravos no mesmo período.
Em Moçambique, o comércio com as Índias faz, porto obrigatório para seguir viagem na ida e na volta, pois enquanto havia monções, os navios ficavam ancorados. Os navios iam atrás de temperos, especiarias, tecidos e “em busca de ‘negócios da China’ navegavam contra vento, contra monção, contra maré, contra tempestade e contra a razão” (p. 15).
Em Moçambique, a colonização se deu de forma muito superficial e frágil. Há um império pré-europeu chamado monomotapa e os nativos chamados amambo. Num primeiro momento há um extermínio, mas os portugueses têm de reconhecer a autoridade do monomotapa sobre os nativos, com isso os primeiros detentores de domínios (prazeiros) são confirmados pelos nativos. Os prazeiros pagam tributos em ouro à Coroa e recebem os tributos dos nativos em forma de marfim, milho ou um a renda em trabalho, o mussoco. Ao monomotapa era pago pelos colonos um tributo em tecidos, a fatiota. Os escravos moçambicanos eram traficados para o golfo pérsico, pois os portugueses deviam pagar suas dívidas com os otomanos, e em suas relações com o oriente.
A partir de 1626, os domínios deixam de ser hereditários, tornando-se prazos da Coroa, onde eram herdados apenas em linha feminina. Para tanto, a herdeira deveria casar-se com um morador nascido em Portugal, um reinol, ou com um filho de reinol.
Ao assumir o posto, os capitães e governadores pagavam ao monomotapa o curva, certa porção de tecidos. No início do sec. XIX, o não pagamento do curva provoca uma insurreição, de 1806 a 1826, que só termina com o pagamento do mesmo. Esse esquema funciona muito até o começo do século XIX, quando os negreiros brasileiros operam a atlantização de Moçambique.


Com base nos textos de Ciro Flamarion Cardoso, Fernando Novais e João Fragoso, discuta as interpretações e debates acerca da “economia colonial” da América Portuguesa.
Segundo Fernando Novais, o Antigo Sistema Colonial era uma conjuntura contradizente que levou-se à estagnação, onde as áreas coloniais não podiam auto estimular-se, dependiam dos impulsos da metrópole.  O estudo aponta os latifúndios exportadores como autossuficientes. O “exclusivo colonial” é a ideia mais interessante a ser levada em consideração nesse trabalho, segundo a qual a metrópole vende produtos europeus ao maior preço possível, mas não tão alto a ponto de serem inacessíveis e comprar os produtos coloniais ao menor preço, porém não tão baixos que impedissem a continuidade das atividades produtivas. A ideia de Antigo Sistema Colonial se baseia em acumular primitivamente capital durante o período mercantilista para o desenvolvimento do capitalismo, e com isso gerar um sentido para a colonização.
Para Ciro F. S. Cardoso, a ideia de Antigo Sistema Colonial de Fernando Novais é uma teoria generalizante e equivocada por faltar bases bibliográficas, portanto evasiva. Em sua proposta é necessário o estudo de caso para teorizar cada caso porque não faz-se possível reduzir macroestruturas coloniais em teorias generalizantes. Devem ser estudadas as formas livres de trabalho. O sistema capitalista não existia ainda durante o período colonial, pois a mão de obra escrava não caracteriza o capitalismo e sim um modo de produção escravista colonial. A extração de excedente não deve ser a única preocupação do historiador, e sim as estruturas internas das colônias em si mesmas na sua maneira de funcionar para que o quadro seja satisfatório, ou seja, completo.
Para João Fragoso, a produção colonial voltada para o comércio interno, que foi pormenorizada em trabalhos anteriores, foi extremamente importante para o rompimento com o sistema colonial. A acumulação primitiva não ocorria, pois os portugueses não tinham uma visão capitalista e sim de ostentação, para obterem status e manterem-no. A mentalidade portuguesa estava intrinsecamente ligada ao feudalismo e à manutenção da nobreza de parte da população e para a ascensão dos mercadores a esse estamento social. O estudo foi baseado no caso fluminense entre 1790 e 1830, em que são estudadas as relações comerciais coloniais internas, e o setor de abastecimento interno com natureza não escravista e não mercantil independente das flutuações de preços externas.
Referências
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980.
FRAGOSO, João. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1998.
NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial, 1777-1808. São Paulo: Hucitec, 1979.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Resenha: A civilização feudal do ano mil à colonização da América Jérôme Baschet


Resenha: A civilização feudal do ano mil à colonização da América
As relações feudo-vassálicas e o ritual de homenagem
Jérôme Baschet
A Idade Média é um período da história que durou mil anos e é caracterizada por um sistema peculiar chamado feudalismo e seus laços de vassalagem e servidão. Outra característica fundamental é a ruralização da sociedade. Para melhor compreensão, o autor escolheu a segunda metade do período para explicar como se deram as relações feudais de vassalagem porque durante a primeira metade ocorreu a consolidação do regime.
O feudalismo, como todas as relações humanas, não foi uniforme, porém por uma questão didática e pelo volume de fontes históricas torna-se impossível estudar por completo todas as regiões da Europa no período. As relações de vassalagem e servidão são diversas, assim como os 'escravismos'. Em cada região, em cada povo, em cada feudo, para cada vassalo ou servo havia uma relação vassálica ou feudo-vassálica diferente.
A relação vassálica iniciou-se na época carolíngia, onde o rei procura a fidelidade dos mais influentes, aristocratas, dando-lhes "honras" principalmente governo de províncias. Institui uma "hierarquia entre iguais”, (p. 123) onde o vassalo se engaja a servir seu senhor de acordo com o costume feudal. O senhor feudal, por muitas vezes, era vassalo de outro senhor, e assim sucessivamente até o monarca que, a princípio seria o dono de toda a terra.
As relações de vassalagem asseguravam uma estruturação social para os nobres. Segundo o autor, "eram restritas apenas a uma porção ínfima da população cerca de 1% a 2% e asseguravam a distribuição do poder no seio da aristocracia”. (p. 122) Portanto, as relações vassálicas não são a base de estratificação social, porém garantem a obrigação militar dos vassalos para com seus senhores. Mas surgem dificuldades quando um nobre presta homenagens a diversos senhores diferentes, pois os interesses dos senhores eram distintos em muitos casos.
As relações referentes aos camponeses eram feudo-vassálicas, diferente da anterior por dizer respeito ao uso da terra e não necessariamente às obrigações militares dos nobres. As relações feudo-vassálicas se situavam na obrigação de fornecer ao senhor excedentes agrícolas e servir como soldado nas empreitadas militares do senhor.
O feudo, porém pode ser considerado um direito senhorial, ou particular, exercendo a justiça e cobrando impostos, taxas ou pedágios. O rei é proprietário da terra, porém como direito senhorial, passa-se o poder ao nobre, mas com o uso da terra quem se faz dono é o camponês que a transmite aos seus descendentes, no entanto há taxas a serem pagas ao senhor que garante ao camponês a paz e a não destruição das plantações.
Plantações essas que garantiam a renda dos próprios senhores, pois o excedente agrícola era a sua principal fonte de numerários. Dessa renda, parte era destinada aos seus senhores mais ricos, sucessivamente até o monarca. O monarca, segundo Perry Anderson, era "suserano feudal de seus vassalos" e "seus recursos econômicos provinham quase que exclusivamente dos seus domínios pessoais enquanto senhor." (p 147) Porém cobrava contribuições essencialmente militares de seus vassalos.
Uma concessão feita ao vassalo deveria ser retomada quando este morresse, porém a terra é repassada aos seus descendentes, o que faz com que os filhos do vassalo preste também homenagem ao senhor. Por esta razão, o senhor esforça-se continuamente em manter as obrigações vassálicas. No entanto, o feudo parece pertencer à família do vassalo que se permite, às vezes, vendê-lo. Porém o senhor mantém o direito de punir os vassalos por suas faltas até mesmo com o confisco do feudo.
Essa dinâmica do processo demonstra a fragilidade crescente da unidade nacional. Condes e duques significam e ressignificam os laços vassálicos garantindo para si um contingente militar confiável e considerável. O poder se torna assim extremamente local. "A concentração de poderes de origens diferentes nas mãos de senhores próximos e exigentes poderia mesmo ser considerada um dos elementos decisivos do crescimento ocidental." Por esta razão, "essa forma de organização era suficientemente adaptada às possibilidades materiais de produção e à lógica social global." (p. 127)
Segundo Anderson a justiça era sinônimo de poder (p.149), e o feudo era a jurisdição privada do senhor, no entanto o poder monárquico não pode ser menosprezado, por exercer uma autoridade pública em meio a jurisdições privadas. (p. 148) Enquanto Baschet completa dizendo que todos habitantes do senhorio sofrem dominação do senhor local.
As habitações rurais eram frágeis e constantemente abandonadas, pelo empobrecimento do solo, que obrigava os camponeses a se mudarem para conseguir melhores safras. Com uma distribuição de terras para agricultura e formação de aldeias e vilas, por volta do ano 900 ao ano 1000, essas habitações passam a ser mais resistentes e habitadas continuamente.
Durante o século X particularmente na Itália ocorre o reagrupamento em aldeias no interior das muralhas fortificadas dos castelos. Dá-se início então ao encelulamento, onde ocorrem os princípios do renascimento. A intencionalidade de reagrupar as pessoas é de segundo ou terceiro plano, pois a disseminação de castelos tinha função militar de proteção e social de ostentação.
Durante o século XI a característica principal é de um senhor agrupando várias aldeias, porém o século XII tem a característica oposta, onde vários senhores dominam uma mesma aldeia. O aldeão pode, portanto ser vassalo de diversos senhores para distintos interesses. "A reconfiguração socio-espacial leva à formação de um sistema dotado de coerência nova e que é o quadro de um desenvolvimento de amplitude inédita." (p. 132) Até então a sociedade apenas se ruralizava, enquanto iniciou o processo de reurbanização da Europa traz novos conceitos citadinos.
Outra forma de agrupamento social é a paróquia que não necessariamente está imersa nas muralhas do castelo. Com isso há a formação de aldeias isoladas, dispersas. A Igreja, no entanto torna-se um instrumento de denúncia dos abusos de senhores laicos, contudo legitima seus senhorios em detrimento da aristocracia. Sua intencionalidade, segundo o autor, é a manutenção do sistema senhorial, onde os clérigos seriam os senhores.
O domínio senhorial abrangia além da vassalagem, a servidão e a escravidão. Em ambos os casos havia sérias restrições de liberdade. A escravidão, em diversas fontes tidas como abolida no período, se faz presente em ínfimo número e utilizada principalmente para o comércio com árabes como moeda de troca por especiarias asiáticas. O servo não é propriedade do senhor, porém não goza de alguns direitos que o s homens livres possuem. A servidão, porém não era dominante e sua abrangência era flutuante de acordo com a localidade e período temporal e afetava principalmente a população rural.
O domínio senhorial é, portanto fundado em uma interdependência pessoal entre o senhor, o servo e os vassalos, onde as taxas e impostos, juntamente aos deveres servis caracterizam o dominium. O poder, como já dito era exercido através da justiça, e os senhores passaram a eles mesmos exercê-la, reduzindo assim mais ainda o poder central. Entretanto a competência judiciária não é igual para todos os senhores, a justiça exercida é principalmente fundiária. A justiça exercida é mais uma forma de assegurar a manutenção do poder senhorial, pois não há apelação.

resenha Lugar da História na sociedade africana Joseph Ki-Zerbo e Hama Boubou


História geral da África I
Capítulo 2 Lugar da História na sociedade africana
Joseph Ki-Zerbo e Hama Boubou
A África é um continente maciço e antigo, apoiado em placas tectônicas longas e firmes. É extremamente rica, contudo não há um gerenciamento de seus recursos para melhor aproveitamento deles. A falta de baias e enseadas isola a África por via marítima, o Saara é uma barreira natural para as migrações no sentido norte-sul e vice-versa.
Por se voltar para si, a sociedade africana não sofreu muita influência estrangeira, a princípio. O isolamento das sociedades africanas estreita sua visão histórica, pois sem que se tenha um apanhado sobre história geral e haja uma interação entre culturas, não se pode ter uma visão de mundo, mas somente uma visão regional.
Enquanto a história busca a compreensão do homem através do tempo, o homem africano tem a consciência prática de que seus atos serão refletidos e interiorizados posteriormente, pois faz parte do imaginário popular e das religiões africanas o culto aos ancestrais, se reportando a eles sempre que haja necessidade de uma tomada de decisão importante. O apego aos ancestrais os faz o africano mais influente posteriormente que em seu próprio tempo.
O tempo africano tradicional engloba e integra a eternidade em todos os sentidos, não sendo a duração capaz de ritmar um destino individual. É primordialmente mítico e social. "Toda história é originalmente uma história sagrada." (p. 28) O tempo africano é medido pelas estações chuvosas e seu calendário é complexo, com métodos de datação semelhantes aos utilizados na Europa nos séculos XVIII e XIX.
O africano inicialmente não se vê como subalterno, pois não vivencia uma sociedade altamente hierarquizada, o poder é extremamente bem distribuído, o que faz da história uma questão que diz respeito a todos. Daí o "sentimento de fazer história mesmo em uma escala micro cósmica da aldeia" (p. 31) é primordial para que seus descendentes possam buscar neles as respostas quando se reportarem aos ancestrais. Pois existe no africano um desejo de invocar o passado, para justificar-se sem que para isso ocorra o imobilismo ou o impedimento do progresso. A história justifica o passado enquanto exorta para o futuro. O homem africano não se vê preso a um processo estático, nem a um retorno cíclico, para ele "o tempo é o lugar onde o homem pode, sem cessar, lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital." (p. 31)
A concepção africana de Chefe dá a este um espaço exorbitante na história dos povos, no entanto a ideia do líder que atua como motor da história não é creditada a um só homem, num esquema simplista. A história na África reserva aos companheiros dos chefes, mesmo em situação subalterna um lugar como herois. Para o exercício do poder é necessário o valor ético primordialmente.
A educação africana é um processo de preparação a uma vida de responsabilidades, onde a coletividade é o cerne da questão e a paciência deve ser trabalhada enquanto a fúria deve ser canalizada para uma melhor atuação nas responsabilidades públicas.
O Saara foi a porta de entrada da cultura islâmica na África, que trouxe consigo a cultura letrada. Contudo a escrita não garante uma consciência coletiva de ser agente histórico, porém estabelece pontos de referência, organizando o fluxo histórico e garantindo o estudo histórico e uma compreensão mais facilitada por meio de fontes escritas.
A história africana reserva um lugar para as mulheres de maior prestígio que em outros lugares, seja pela sucessão matrilinear, ou pela participação na vida coletiva nas artes, no trabalho, ou pelas batalhas motivadas por elas "as mulheres africana sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos povos" (p. 30), e o provérbio africano justifica: "As mulheres podem tudo comprometer, elas podem tudo arranjar." (p. 30) Pelo poder de sedução e facilidade de traição a qual as mulheres desempenharam os papeis históricos, elas entram na história africana com muito prestígio.
Como a África é pouco acessível por via marítima, o deserto foi a principal forma de interação dos povos africanos. Com isso temos a entrada da cultura islâmica como anterior à europeia. Apenas com o desenvolvimento de novas tecnologias de navegação, os europeus conseguiram chegar ao continente africano, o interesse inicial é o de evitar os intermediários árabes e conseguir melhores preços aos produtos africanos.
Com as invasões europeias, excessivas imposições exteriores e alienantes 'domesticaram' o africano a não desenvolver uma consciência responsável. Os membros de sociedades africanas só tinham consciência de estar fazendo história numa escala e numa medida bastante limitada. "Isto não significa, em absoluto, um condicionamento ideológico que destrói o espírito crítico" (p.29) O camponês quando 'senhor da casa' acreditava ter amplo controle de seu próprio destino. "O apego à liberdade atestava aqui o gosto pela iniciativa e o repúdio à alienação" (p. 29) Isso foi um desafio aos colonizadores, pois a resistência às imposições foi gigantesca.
Essas invasões trazem consigo a mentalidade de lucro e acumulação monetária, o que gera uma mudança na concepção de tempo. "O dinheiro faz a história." (p. 35) O texto se encerra com a afirmação: O homem africano, de tão próximo de sua história, tinha a impressão de forjá-la por si mesmo em suas microssociedades, agora enfrenta o risco iminente de uma imensa alienação e a oportunidade de ser coautor do processo histórico global.
Portanto a colonização europeia na África trouxe consigo a alienação monetária, onde a 'mais valia' causa exploração da mão de obra, que por sua vez gera lucros, por vezes exorbitantes, aos donos dos meios de produção, e mesmo explorados são levados a acreditar que devem ser gratos pela oportunidade de ter um trabalho que lhes garante minimamente um poder aquisitivo que não garante perfeitamente o sustento de suas famílias.
A colonização europeia e sua ganância foram nocivas à noção africana de história e tempo, assim como o processo de aculturação ao cristianismo e os preconceitos europeus geram uma maior resistência à dominação, mas o dinheiro corrompe e a partir desse preceito, os saques e invasões se sucederam e se legitimaram gerando grandes perdas à África. A maior desculpa para a invasão é de 'foram abertas as portas da África para o mundo', onde o isolamento africano deixou de existir.
O isolamento africano foi nocivo a uma visão mais global, todavia o preço pago foi muito alto. A África tem a possibilidade de ser agente da história global com essa abertura, mas o poder da alienação monetária não pode ser esquecido.

sexta-feira, 15 de março de 2013

resenha A escrita da História Peter Burke


A escrita da História
Peter Burke
Abertura
A história tradicional, onde se fazia história política nacional, ou tendia a compreender tudo a partir de um viés político começa a perder espaço e tem de dividir o espaço com a história nova, regional e total, onde o político não figura tanta importância. Essa expansão do estudo historiográfico fragmenta o estudo da história.
A história tradicional rankeana tem como paradigma o viés político, a narração dos fatos, visão de cima voltada para os grandes homens, baseada em documentos oficiais, com objetividade e quantitativa. A história nova interessa-se por toda atividade humana, preocupa-se com a análise das estruturas, rejeita a história dos fatos, preocupa-se com mudanças em longo prazo, dá atenção às pessoas comuns, usa-se do relativismo cultural e interdisciplinaridade.
Os principais problemas da história nova são a definição de fontes, método e explicação. Porém traz consigo a crítica a maneira de se fazer história com a história vista de baixo e história social.
As diferentes formas de se fazer história trazem consigo interpretações às vezes errôneas dos predecessores, Marx apesar de se mostrar interessado pela história não era marxista, no entanto isso não impediu que os seus seguidores, marxistas, buscassem fazer história a partir de um viés econômico, Ranke com sua visão cientificista buscando a verdade histórica não era rankeano, não impedindo também que seus seguidores o fossem.
A intenção de quem produz as fontes históricas deve ser avaliada, pois Burke nos alerta “há possibilidade de falsificação das estatísticas ou má interpretação das mesmas.” (p. 9) Isso nos traz um problema muito grande a ser administrado, pois duvidar das fontes é um exercício que requer muito conhecimento acerca do período estudado através de fontes que não podemos dar como certas porque há intencionalidade na produção dos documentos que usamos por fonte. Falácias tendenciosas com o intuito de enaltecer ou depreciar pessoas ou povos são um jugo perigoso que o historiador deve saber se esquivar.
Burke nos atenta “a expansão do campo do historiador implica o repensar da explicação histórica, uma vez que as tendências culturais e sociais não podem ser analisadas da mesma maneira que os acontecimentos políticos.” (p. 12) A crítica aos métodos de análise da historiografia rankeana e marxista nos aponta essa nova história onde tudo é história, qualquer representação acerca do Homem ou de suas relações é passível de análise historiográfica, abrangendo assim períodos e locais que até então somente eram estudados por arqueólogos e antropólogos.
Se tudo é historia então independente das fontes que serão utilizadas, sejam elas orais, escritas, arqueológicas, antropológicas, sociológicas, geográficas, qualquer assunto vira, portanto objeto de estudo da história.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

estudo dirigido François Hartog em A História de Homero a Santo Agostinho (2001: 145-151)


ESTUDO DIRIGIDO
A partir da leitura do texto de Cícero (A origem da História, as leis da História e a eloquência do fórum) publicado por François Hartog em A História de Homero a Santo Agostinho (2001: 145-151) diga quais são as principais características da historiografia romana antiga enunciadas por Cícero. Para responder esta pergunta leve em consideração a afirmação de François Hartog (2001: 216, A evidência da História: O que os historiadores veem que diz que:
A história romana é, com efeito em resumo demasiado rápido, uma história sem história (no sentido grego de investigação), sem testemunhas, nem autópsia, tampouco dois lados (Roma está inteiramente em Roma). Ela é concebida com opus oratorium, de acordo Cícero, ou narratio, narrativa literária composta de autores (scriptores), personalidades importantes que, ao julgarem necessário, recorrem a fiadores ou autoridades (auctores).

A história romana foi escrita através de narrações sem que se houvesse investigação. Para ser historiador se deveria apenas falar a verdade, portanto a menor hipótese de uma falácia deveria ser afastada imediatamente.
Apenas o ócio fazia-se necessário à escrita da história em Roma, a leitura de escritos históricos gregos era de grande valia para formar o estilo narrativo das crônicas. Porém as crônicas romanas não se assemelhavam muito com as crônicas gregas, pois as gregas eram escritas por quem realmente esteve nos relatos, enquanto as romanas eram escritas por aristocratas que ao ouvirem a versão romana dos fatos os transcreviam.
Somente era observada a versão vencedora romana, os outros povos sequer eram observados, assim como os aedos e primeiros historiadores gregos faziam. A história romana em um sentido de análise a partir dos gregos foi um retrocesso imenso, pois a história grega teve uma revolução iniciada por Heródoto, a investigação e relato fidedigno do que se via, enquanto os romanos apenas relatavam por escrito o que era relatado oralmente.
Apenas em casos especiais eram buscados os relatos de quem realmente esteve nos fatos escritos, em geral não se fazia uma busca de quem realmente participou do fato.  A história a princípio, teve seus primeiros registros eternizados na confecção de anais. Esses anais tinham por objetivo preservar a memória dos atos oficiais para dar publicidade aos feitos do imperador.