Souza, Laura de Melo e. Religiosidade popular na colônia. In. O diabo e a terra de santa cruz. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das letras, 1995. p. 86-150.
O texto demostra um distanciamento gigantesco entre os dogmas e a religiosidade vivida. Um bispado em cem anos, não cumprimento das ordens eclesiais, ceticismo da população, padres que ignoravam as ordens do santo Ofício. Coroa portuguesa como patrona das missões católicas e instituições eclesiásticas em suas colônias, com os jesuítas como organizadores do catolicismo.
Havia relações politicas entre padres e a Igreja, tanto que no século XVII, Roma restringe a ação do padroado criando a congregação para a propagação da fé.
Diálogo com Gilberto Freyre Casa Grande- Senzala-Capela, especificidade familiar e sincretismo herético de Carlo Guinzburg.
O catolicismo era religião de fachada. Os cultos tinham traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturados condenando os colonos ao sincretismo religioso. Inconsciência religiosa, deturpação, desconhecimento completo dos dogmas, paganismos, aprendizagem catequética por memorização de poucos rudimentos religiosos, que não eram entendidos e após alguns anos esquecidos.
Deus era objeto de dúvidas e indagações. Havia descrença em Deus generalizada, utilização da fé como fornecedora de bens materiais, fornecedora de vantagens concretas ou tratamento de todos os males, como subterfúgio ao abarcamento de seus interesses, cometendo blasfêmias de todas as maneiras, até mesmo pelo mau viver dos padres. Muitos párocos vivam em regime de concubinato, eram sodomitas, ébrios, envolviam-se em brigas, rixas, jogatinas, crimes de todo tipo, desacatavam aos fiéis.
Os fiéis eram impacientes devido a curta duração da vida. A fé constantemente era posta em xeque, ‘justiça divina duvidosa e falha’. “Se Deus era o Criador a ser adorado, por que fizera a desigualdade social?” (p. 111).
Indistinção entre sagrado e profano traduzida na identificação e devoção aos santos. Familiarização com os santos. Crença judaica atrelada ao ceticismo. Explicação para tudo em Deus ou no diabo. Os colonos não tinham base científica que lhes explicasse os fenômenos, portanto tudo era explicado através de forças espirituais, sobrenaturais, metafísicas.
Completo desrespeito e desacato aos símbolos e ritos religiosos católicos. Havia muita ambiguidade, o que se ama às vezes se odeia, por uma economia religiosa de toma lá dá cá, quando se alcança a graça o amor se manifesta ao santo, quando não se alcança o esperado, xinga, atira-o nos cantos, odeia-o.
Demonização das ações humanas de ‘má vontade’ e divinização da aquisição de bens materiais. Tudo podia ser explicado pelo sagrado ou profano, pois sem uma razão sustentada na ciência, a Igreja dominava a mentalidade popular, porém com suas limitações conquanto à fé do povo. Menção ao padre Antonil como divinizador do produto mercantil gerador de lucros e bens.
Parecer do resenhista
A religiosidade colonial era extremamente falha em relação aos dogmas e preceitos religiosos católicos vigentes, mesmo porque a distância da Europa dificultava muito a repressão àqueles que se rebelassem contra a ordem religiosa. Mesmo os que eram pegos em atos heréticos às vezes não eram punidos por haver apenas um bispado em toda colônia durante mais de um século.
O carnaval também foi uma invenção dessa época, séc. XVI, onde os portugueses ‘fervorosos’ no catolicismo, quando defrontados com a quaresma, quarenta dias de privação de todos os prazeres carnais, montaram no calendário uma semana para extravasar nos deleites possíveis.
Indico este livro a todos que tenham interesse em conhecer um pouco sobre como os colonos se atinham às coisas sagradas, mediante a religiosidade vigente, o catolicismo.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Luiz Filipe de Alencastro
O trato dos viventes
O autor começa com o poder exercido por Carlos V, rei da Espanha, sobre a colônia peruana, que a partir de 1542-43 proclama as leyes nuevas reconhecendo a soberania dos índios, com o propósito de afirmar-se como emperador de muchos reyes. Porém os índios às vezes revoltavam-se contra a tributação da coroa, porém logo era contida a revolta e retomava-se a tributação.
Angola apresentou um conflito político semelhante, porém a Coroa portuguesa bate de frente e em 1551 concede como capitania hereditária a Paulo Dias Novais, neto de Bartolomeu Dias. Mas após o desastre de Alcácer Quibir (1578), o donatário concede aos conquistadores e jesuítas terras, nativos e rendas denominados amos. Nesses havia cobrança de tributos dos nativos (amumbundos) que, na maioria das vezes eram pagos com escravos que eram exportados para a América.
Ficando claro a Portugal que Angola não tinha minas de prata e que o trafico de escravos seria a principal atividade econômica, a coroa retoma a colônia em 1592 e determina um governador que, logo de cara, proíbe os amos. Mas essa medida é rechaçada logo de cara e os conquistadores, junto com os jesuítas, o expulsam em 10 meses. Porém, logo em seguida o rei de Portugal nomeia outro governador, que era “pau-mandado” dos jesuítas, que volta atrás na proibição dos amos. Anos depois a Coroa portuguesa toma o comando, e embora houvesse conflitos, Angola entra de vez no comércio transatlântico de escravos.
Angola é o principal porto exportador de escravos para a América nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, enquanto o Brasil é o maior importador de escravos no mesmo período.
Em Moçambique, o comércio com as Índias faz, porto obrigatório para seguir viagem na ida e na volta, pois enquanto havia monções, os navios ficavam ancorados. Os navios iam atrás de temperos, especiarias, tecidos e “em busca de ‘negócios da China’ navegavam contra vento, contra monção, contra maré, contra tempestade e contra a razão” (p. 15).
Em Moçambique, a colonização se deu de forma muito superficial e frágil. Há um império pré-europeu chamado monomotapa e os nativos chamados amambo. Num primeiro momento há um extermínio, mas os portugueses têm de reconhecer a autoridade do monomotapa sobre os nativos, com isso os primeiros detentores de domínios (prazeiros) são confirmados pelos nativos. Os prazeiros pagam tributos em ouro à Coroa e recebem os tributos dos nativos em forma de marfim, milho ou um a renda em trabalho, o mussoco. Ao monomotapa era pago pelos colonos um tributo em tecidos, a fatiota. Os escravos moçambicanos eram traficados para o golfo pérsico, pois os portugueses deviam pagar suas dívidas com os otomanos, e em suas relações com o oriente.
A partir de 1626, os domínios deixam de ser hereditários, tornando-se prazos da Coroa, onde eram herdados apenas em linha feminina. Para tanto, a herdeira deveria casar-se com um morador nascido em Portugal, um reinol, ou com um filho de reinol.
Ao assumir o posto, os capitães e governadores pagavam ao monomotapa o curva, certa porção de tecidos. No início do sec. XIX, o não pagamento do curva provoca uma insurreição, de 1806 a 1826, que só termina com o pagamento do mesmo. Esse esquema funciona muito até o começo do século XIX, quando os negreiros brasileiros operam a atlantização de Moçambique.
O trato dos viventes
O autor começa com o poder exercido por Carlos V, rei da Espanha, sobre a colônia peruana, que a partir de 1542-43 proclama as leyes nuevas reconhecendo a soberania dos índios, com o propósito de afirmar-se como emperador de muchos reyes. Porém os índios às vezes revoltavam-se contra a tributação da coroa, porém logo era contida a revolta e retomava-se a tributação.
Angola apresentou um conflito político semelhante, porém a Coroa portuguesa bate de frente e em 1551 concede como capitania hereditária a Paulo Dias Novais, neto de Bartolomeu Dias. Mas após o desastre de Alcácer Quibir (1578), o donatário concede aos conquistadores e jesuítas terras, nativos e rendas denominados amos. Nesses havia cobrança de tributos dos nativos (amumbundos) que, na maioria das vezes eram pagos com escravos que eram exportados para a América.
Ficando claro a Portugal que Angola não tinha minas de prata e que o trafico de escravos seria a principal atividade econômica, a coroa retoma a colônia em 1592 e determina um governador que, logo de cara, proíbe os amos. Mas essa medida é rechaçada logo de cara e os conquistadores, junto com os jesuítas, o expulsam em 10 meses. Porém, logo em seguida o rei de Portugal nomeia outro governador, que era “pau-mandado” dos jesuítas, que volta atrás na proibição dos amos. Anos depois a Coroa portuguesa toma o comando, e embora houvesse conflitos, Angola entra de vez no comércio transatlântico de escravos.
Angola é o principal porto exportador de escravos para a América nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, enquanto o Brasil é o maior importador de escravos no mesmo período.
Em Moçambique, o comércio com as Índias faz, porto obrigatório para seguir viagem na ida e na volta, pois enquanto havia monções, os navios ficavam ancorados. Os navios iam atrás de temperos, especiarias, tecidos e “em busca de ‘negócios da China’ navegavam contra vento, contra monção, contra maré, contra tempestade e contra a razão” (p. 15).
Em Moçambique, a colonização se deu de forma muito superficial e frágil. Há um império pré-europeu chamado monomotapa e os nativos chamados amambo. Num primeiro momento há um extermínio, mas os portugueses têm de reconhecer a autoridade do monomotapa sobre os nativos, com isso os primeiros detentores de domínios (prazeiros) são confirmados pelos nativos. Os prazeiros pagam tributos em ouro à Coroa e recebem os tributos dos nativos em forma de marfim, milho ou um a renda em trabalho, o mussoco. Ao monomotapa era pago pelos colonos um tributo em tecidos, a fatiota. Os escravos moçambicanos eram traficados para o golfo pérsico, pois os portugueses deviam pagar suas dívidas com os otomanos, e em suas relações com o oriente.
A partir de 1626, os domínios deixam de ser hereditários, tornando-se prazos da Coroa, onde eram herdados apenas em linha feminina. Para tanto, a herdeira deveria casar-se com um morador nascido em Portugal, um reinol, ou com um filho de reinol.
Ao assumir o posto, os capitães e governadores pagavam ao monomotapa o curva, certa porção de tecidos. No início do sec. XIX, o não pagamento do curva provoca uma insurreição, de 1806 a 1826, que só termina com o pagamento do mesmo. Esse esquema funciona muito até o começo do século XIX, quando os negreiros brasileiros operam a atlantização de Moçambique.
Com base nos textos de Ciro Flamarion Cardoso, Fernando Novais e João Fragoso, discuta as interpretações e debates acerca da “economia colonial” da América Portuguesa.
Segundo Fernando Novais, o Antigo Sistema Colonial era uma conjuntura contradizente que levou-se à estagnação, onde as áreas coloniais não podiam auto estimular-se, dependiam dos impulsos da metrópole. O estudo aponta os latifúndios exportadores como autossuficientes. O “exclusivo colonial” é a ideia mais interessante a ser levada em consideração nesse trabalho, segundo a qual a metrópole vende produtos europeus ao maior preço possível, mas não tão alto a ponto de serem inacessíveis e comprar os produtos coloniais ao menor preço, porém não tão baixos que impedissem a continuidade das atividades produtivas. A ideia de Antigo Sistema Colonial se baseia em acumular primitivamente capital durante o período mercantilista para o desenvolvimento do capitalismo, e com isso gerar um sentido para a colonização.
Para Ciro F. S. Cardoso, a ideia de Antigo Sistema Colonial de Fernando Novais é uma teoria generalizante e equivocada por faltar bases bibliográficas, portanto evasiva. Em sua proposta é necessário o estudo de caso para teorizar cada caso porque não faz-se possível reduzir macroestruturas coloniais em teorias generalizantes. Devem ser estudadas as formas livres de trabalho. O sistema capitalista não existia ainda durante o período colonial, pois a mão de obra escrava não caracteriza o capitalismo e sim um modo de produção escravista colonial. A extração de excedente não deve ser a única preocupação do historiador, e sim as estruturas internas das colônias em si mesmas na sua maneira de funcionar para que o quadro seja satisfatório, ou seja, completo.
Para João Fragoso, a produção colonial voltada para o comércio interno, que foi pormenorizada em trabalhos anteriores, foi extremamente importante para o rompimento com o sistema colonial. A acumulação primitiva não ocorria, pois os portugueses não tinham uma visão capitalista e sim de ostentação, para obterem status e manterem-no. A mentalidade portuguesa estava intrinsecamente ligada ao feudalismo e à manutenção da nobreza de parte da população e para a ascensão dos mercadores a esse estamento social. O estudo foi baseado no caso fluminense entre 1790 e 1830, em que são estudadas as relações comerciais coloniais internas, e o setor de abastecimento interno com natureza não escravista e não mercantil independente das flutuações de preços externas.
Referências
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980.
FRAGOSO, João. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1998.
NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial, 1777-1808. São Paulo: Hucitec, 1979.
Segundo Fernando Novais, o Antigo Sistema Colonial era uma conjuntura contradizente que levou-se à estagnação, onde as áreas coloniais não podiam auto estimular-se, dependiam dos impulsos da metrópole. O estudo aponta os latifúndios exportadores como autossuficientes. O “exclusivo colonial” é a ideia mais interessante a ser levada em consideração nesse trabalho, segundo a qual a metrópole vende produtos europeus ao maior preço possível, mas não tão alto a ponto de serem inacessíveis e comprar os produtos coloniais ao menor preço, porém não tão baixos que impedissem a continuidade das atividades produtivas. A ideia de Antigo Sistema Colonial se baseia em acumular primitivamente capital durante o período mercantilista para o desenvolvimento do capitalismo, e com isso gerar um sentido para a colonização.
Para Ciro F. S. Cardoso, a ideia de Antigo Sistema Colonial de Fernando Novais é uma teoria generalizante e equivocada por faltar bases bibliográficas, portanto evasiva. Em sua proposta é necessário o estudo de caso para teorizar cada caso porque não faz-se possível reduzir macroestruturas coloniais em teorias generalizantes. Devem ser estudadas as formas livres de trabalho. O sistema capitalista não existia ainda durante o período colonial, pois a mão de obra escrava não caracteriza o capitalismo e sim um modo de produção escravista colonial. A extração de excedente não deve ser a única preocupação do historiador, e sim as estruturas internas das colônias em si mesmas na sua maneira de funcionar para que o quadro seja satisfatório, ou seja, completo.
Para João Fragoso, a produção colonial voltada para o comércio interno, que foi pormenorizada em trabalhos anteriores, foi extremamente importante para o rompimento com o sistema colonial. A acumulação primitiva não ocorria, pois os portugueses não tinham uma visão capitalista e sim de ostentação, para obterem status e manterem-no. A mentalidade portuguesa estava intrinsecamente ligada ao feudalismo e à manutenção da nobreza de parte da população e para a ascensão dos mercadores a esse estamento social. O estudo foi baseado no caso fluminense entre 1790 e 1830, em que são estudadas as relações comerciais coloniais internas, e o setor de abastecimento interno com natureza não escravista e não mercantil independente das flutuações de preços externas.
Referências
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980.
FRAGOSO, João. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1998.
NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial, 1777-1808. São Paulo: Hucitec, 1979.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Resenha: A civilização feudal do ano mil à colonização da América Jérôme Baschet
Resenha: A civilização feudal do ano mil à colonização da América
As relações feudo-vassálicas e o ritual de homenagem
Jérôme Baschet
A Idade Média é um período da história que durou mil
anos e é caracterizada por um sistema peculiar chamado feudalismo e seus laços
de vassalagem e servidão. Outra característica fundamental é a ruralização da
sociedade. Para melhor compreensão, o autor escolheu a segunda metade do
período para explicar como se deram as relações feudais de vassalagem porque durante
a primeira metade ocorreu a consolidação do regime.
O feudalismo, como todas as relações humanas, não foi
uniforme, porém por uma questão didática e pelo volume de fontes históricas
torna-se impossível estudar por completo todas as regiões da Europa no período.
As relações de vassalagem e servidão são diversas, assim como os 'escravismos'.
Em cada região, em cada povo, em cada feudo, para cada vassalo ou servo havia
uma relação vassálica ou feudo-vassálica diferente.
A relação vassálica iniciou-se na época carolíngia,
onde o rei procura a fidelidade dos mais influentes, aristocratas, dando-lhes
"honras" principalmente governo de províncias. Institui uma
"hierarquia entre iguais”, (p. 123) onde o vassalo se engaja a servir seu
senhor de acordo com o costume feudal. O senhor feudal, por muitas vezes, era
vassalo de outro senhor, e assim sucessivamente até o monarca que, a princípio
seria o dono de toda a terra.
As relações de vassalagem asseguravam uma estruturação
social para os nobres. Segundo o autor, "eram restritas apenas a uma
porção ínfima da população cerca de 1% a 2% e asseguravam a distribuição do
poder no seio da aristocracia”. (p. 122) Portanto, as relações vassálicas não
são a base de estratificação social, porém garantem a obrigação militar dos
vassalos para com seus senhores. Mas surgem dificuldades quando um nobre presta
homenagens a diversos senhores diferentes, pois os interesses dos senhores eram
distintos em muitos casos.
As relações referentes aos camponeses eram
feudo-vassálicas, diferente da anterior por dizer respeito ao uso da terra e
não necessariamente às obrigações militares dos nobres. As relações
feudo-vassálicas se situavam na obrigação de fornecer ao senhor excedentes
agrícolas e servir como soldado nas empreitadas militares do senhor.
O feudo, porém pode ser considerado um direito
senhorial, ou particular, exercendo a justiça e cobrando impostos, taxas ou
pedágios. O rei é proprietário da terra, porém como direito senhorial, passa-se
o poder ao nobre, mas com o uso da terra quem se faz dono é o camponês que a
transmite aos seus descendentes, no entanto há taxas a serem pagas ao senhor
que garante ao camponês a paz e a não destruição das plantações.
Plantações essas que garantiam a renda dos próprios
senhores, pois o excedente agrícola era a sua principal fonte de numerários.
Dessa renda, parte era destinada aos seus senhores mais ricos, sucessivamente
até o monarca. O monarca, segundo Perry Anderson, era "suserano feudal de
seus vassalos" e "seus recursos econômicos provinham quase que
exclusivamente dos seus domínios pessoais enquanto senhor." (p 147) Porém
cobrava contribuições essencialmente militares de seus vassalos.
Uma concessão feita ao vassalo deveria ser retomada
quando este morresse, porém a terra é repassada aos seus descendentes, o que
faz com que os filhos do vassalo preste também homenagem ao senhor. Por esta
razão, o senhor esforça-se continuamente em manter as obrigações vassálicas. No
entanto, o feudo parece pertencer à família do vassalo que se permite, às
vezes, vendê-lo. Porém o senhor mantém o direito de punir os vassalos por suas
faltas até mesmo com o confisco do feudo.
Essa dinâmica do processo demonstra a fragilidade
crescente da unidade nacional. Condes e duques significam e ressignificam os
laços vassálicos garantindo para si um contingente militar confiável e
considerável. O poder se torna assim extremamente local. "A concentração
de poderes de origens diferentes nas mãos de senhores próximos e exigentes
poderia mesmo ser considerada um dos elementos decisivos do crescimento
ocidental." Por esta razão, "essa forma de organização era
suficientemente adaptada às possibilidades materiais de produção e à lógica
social global." (p. 127)
Segundo Anderson a justiça era sinônimo de poder
(p.149), e o feudo era a jurisdição privada do senhor, no entanto o poder
monárquico não pode ser menosprezado, por exercer uma autoridade pública em
meio a jurisdições privadas. (p. 148) Enquanto Baschet completa dizendo que
todos habitantes do senhorio sofrem dominação do senhor local.
As habitações rurais eram frágeis e constantemente
abandonadas, pelo empobrecimento do solo, que obrigava os camponeses a se
mudarem para conseguir melhores safras. Com uma distribuição de terras para
agricultura e formação de aldeias e vilas, por volta do ano 900 ao ano 1000,
essas habitações passam a ser mais resistentes e habitadas continuamente.
Durante o século X particularmente na Itália ocorre o
reagrupamento em aldeias no interior das muralhas fortificadas dos castelos. Dá-se
início então ao encelulamento, onde ocorrem os princípios do renascimento. A
intencionalidade de reagrupar as pessoas é de segundo ou terceiro plano, pois a
disseminação de castelos tinha função militar de proteção e social de
ostentação.
Durante o século XI a característica principal é de um
senhor agrupando várias aldeias, porém o século XII tem a característica
oposta, onde vários senhores dominam uma mesma aldeia. O aldeão pode, portanto
ser vassalo de diversos senhores para distintos interesses. "A
reconfiguração socio-espacial leva à formação de um sistema dotado de coerência
nova e que é o quadro de um desenvolvimento de amplitude inédita." (p.
132) Até então a sociedade apenas se ruralizava, enquanto iniciou o processo de
reurbanização da Europa traz novos conceitos citadinos.
Outra forma de agrupamento social é a paróquia que não
necessariamente está imersa nas muralhas do castelo. Com isso há a formação de
aldeias isoladas, dispersas. A Igreja, no entanto torna-se um instrumento de
denúncia dos abusos de senhores laicos, contudo legitima seus senhorios em
detrimento da aristocracia. Sua intencionalidade, segundo o autor, é a
manutenção do sistema senhorial, onde os clérigos seriam os senhores.
O domínio senhorial abrangia além da vassalagem, a
servidão e a escravidão. Em ambos os casos havia sérias restrições de
liberdade. A escravidão, em diversas fontes tidas como abolida no período, se
faz presente em ínfimo número e utilizada principalmente para o comércio com
árabes como moeda de troca por especiarias asiáticas. O servo não é propriedade
do senhor, porém não goza de alguns direitos que o s homens livres possuem. A
servidão, porém não era dominante e sua abrangência era flutuante de acordo com
a localidade e período temporal e afetava principalmente a população rural.
O
domínio senhorial é, portanto fundado em uma interdependência pessoal entre o
senhor, o servo e os vassalos, onde as taxas e impostos, juntamente aos deveres
servis caracterizam o dominium. O poder, como já dito era exercido através da
justiça, e os senhores passaram a eles mesmos exercê-la, reduzindo assim mais
ainda o poder central. Entretanto a competência judiciária não é igual para
todos os senhores, a justiça exercida é principalmente fundiária. A justiça
exercida é mais uma forma de assegurar a manutenção do poder senhorial, pois
não há apelação.
resenha Lugar da História na sociedade africana Joseph Ki-Zerbo e Hama Boubou
História geral da África I
Capítulo 2 Lugar da História na sociedade africana
Joseph Ki-Zerbo e Hama Boubou
A África é
um continente maciço e antigo, apoiado em placas tectônicas longas e firmes. É
extremamente rica, contudo não há um gerenciamento de seus recursos para melhor
aproveitamento deles. A falta de baias e enseadas isola a África por via
marítima, o Saara é uma barreira natural para as migrações no sentido norte-sul
e vice-versa.
Por se
voltar para si, a sociedade africana não sofreu muita influência estrangeira, a
princípio. O isolamento das sociedades africanas estreita sua visão histórica,
pois sem que se tenha um apanhado sobre história geral e haja uma interação
entre culturas, não se pode ter uma visão de mundo, mas somente uma visão
regional.
Enquanto a
história busca a compreensão do homem através do tempo, o homem africano tem a
consciência prática de que seus atos serão refletidos e interiorizados
posteriormente, pois faz parte do imaginário popular e das religiões africanas
o culto aos ancestrais, se reportando a eles sempre que haja necessidade de uma
tomada de decisão importante. O apego aos ancestrais os faz o africano mais
influente posteriormente que em seu próprio tempo.
O tempo
africano tradicional engloba e integra a eternidade em todos os sentidos, não
sendo a duração capaz de ritmar um destino individual. É primordialmente mítico
e social. "Toda história é originalmente uma história sagrada." (p.
28) O tempo africano é medido pelas estações chuvosas e seu calendário é
complexo, com métodos de datação semelhantes aos utilizados na Europa nos
séculos XVIII e XIX.
O africano
inicialmente não se vê como subalterno, pois não vivencia uma sociedade
altamente hierarquizada, o poder é extremamente bem distribuído, o que faz da
história uma questão que diz respeito a todos. Daí o "sentimento de fazer
história mesmo em uma escala micro cósmica da aldeia" (p. 31) é primordial
para que seus descendentes possam buscar neles as respostas quando se
reportarem aos ancestrais. Pois existe no africano um desejo de invocar o
passado, para justificar-se sem que para isso ocorra o imobilismo ou o
impedimento do progresso. A história justifica o passado enquanto exorta para o
futuro. O homem africano não se vê preso a um processo estático, nem a um
retorno cíclico, para ele "o tempo é o lugar onde o homem pode, sem
cessar, lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital." (p. 31)
A concepção
africana de Chefe dá a este um espaço exorbitante na história dos povos, no
entanto a ideia do líder que atua como motor da história não é creditada a um
só homem, num esquema simplista. A história na África reserva aos companheiros
dos chefes, mesmo em situação subalterna um lugar como herois. Para o exercício
do poder é necessário o valor ético primordialmente.
A educação
africana é um processo de preparação a uma vida de responsabilidades, onde a
coletividade é o cerne da questão e a paciência deve ser trabalhada enquanto a
fúria deve ser canalizada para uma melhor atuação nas responsabilidades
públicas.
O Saara foi
a porta de entrada da cultura islâmica na África, que trouxe consigo a cultura
letrada. Contudo a escrita não garante uma consciência coletiva de ser agente
histórico, porém estabelece pontos de referência, organizando o fluxo histórico
e garantindo o estudo histórico e uma compreensão mais facilitada por meio de
fontes escritas.
A história
africana reserva um lugar para as mulheres de maior prestígio que em outros
lugares, seja pela sucessão matrilinear, ou pela participação na vida coletiva
nas artes, no trabalho, ou pelas batalhas motivadas por elas "as mulheres
africana sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos
povos" (p. 30), e o provérbio africano justifica: "As mulheres podem
tudo comprometer, elas podem tudo arranjar." (p. 30) Pelo poder de sedução
e facilidade de traição a qual as mulheres desempenharam os papeis históricos,
elas entram na história africana com muito prestígio.
Como a
África é pouco acessível por via marítima, o deserto foi a principal forma de
interação dos povos africanos. Com isso temos a entrada da cultura islâmica
como anterior à europeia. Apenas com o desenvolvimento de novas tecnologias de
navegação, os europeus conseguiram chegar ao continente africano, o interesse
inicial é o de evitar os intermediários árabes e conseguir melhores preços aos
produtos africanos.
Com as
invasões europeias, excessivas imposições exteriores e alienantes
'domesticaram' o africano a não desenvolver uma consciência responsável. Os
membros de sociedades africanas só tinham consciência de estar fazendo história
numa escala e numa medida bastante limitada. "Isto não significa, em
absoluto, um condicionamento ideológico que destrói o espírito crítico"
(p.29) O camponês quando 'senhor da casa' acreditava ter amplo controle de seu
próprio destino. "O apego à liberdade atestava aqui o gosto pela
iniciativa e o repúdio à alienação" (p. 29) Isso foi um desafio aos
colonizadores, pois a resistência às imposições foi gigantesca.
Essas
invasões trazem consigo a mentalidade de lucro e acumulação monetária, o que
gera uma mudança na concepção de tempo. "O dinheiro faz a história."
(p. 35) O texto se encerra com a afirmação: O homem africano, de tão próximo de
sua história, tinha a impressão de forjá-la por si mesmo em suas
microssociedades, agora enfrenta o risco iminente de uma imensa alienação e a
oportunidade de ser coautor do processo histórico global.
Portanto a
colonização europeia na África trouxe consigo a alienação monetária, onde a
'mais valia' causa exploração da mão de obra, que por sua vez gera lucros, por
vezes exorbitantes, aos donos dos meios de produção, e mesmo explorados são
levados a acreditar que devem ser gratos pela oportunidade de ter um trabalho
que lhes garante minimamente um poder aquisitivo que não garante perfeitamente
o sustento de suas famílias.
A
colonização europeia e sua ganância foram nocivas à noção africana de história
e tempo, assim como o processo de aculturação ao cristianismo e os preconceitos
europeus geram uma maior resistência à dominação, mas o dinheiro corrompe e a
partir desse preceito, os saques e invasões se sucederam e se legitimaram
gerando grandes perdas à África. A maior desculpa para a invasão é de 'foram
abertas as portas da África para o mundo', onde o isolamento africano deixou de
existir.
O
isolamento africano foi nocivo a uma visão mais global, todavia o preço pago
foi muito alto. A África tem a possibilidade de ser agente da história global
com essa abertura, mas o poder da alienação monetária não pode ser esquecido.
sexta-feira, 15 de março de 2013
resenha A escrita da História Peter Burke
A
escrita da História
Peter
Burke
Abertura
A história tradicional, onde se fazia história
política nacional, ou tendia a compreender tudo a partir de um viés político
começa a perder espaço e tem de dividir o espaço com a história nova, regional e
total, onde o político não figura tanta importância. Essa expansão do estudo historiográfico
fragmenta o estudo da história.
A história tradicional rankeana tem como paradigma o
viés político, a narração dos fatos, visão de cima voltada para os grandes homens,
baseada em documentos oficiais, com objetividade e quantitativa. A história
nova interessa-se por toda atividade humana, preocupa-se com a análise das
estruturas, rejeita a história dos fatos, preocupa-se com mudanças em longo
prazo, dá atenção às pessoas comuns, usa-se do relativismo cultural e interdisciplinaridade.
Os principais problemas da história nova são a
definição de fontes, método e explicação. Porém traz consigo a crítica a
maneira de se fazer história com a história vista de baixo e história social.
As diferentes formas de se fazer história trazem
consigo interpretações às vezes errôneas dos predecessores, Marx apesar de se
mostrar interessado pela história não era marxista, no entanto isso não impediu
que os seus seguidores, marxistas, buscassem fazer história a partir de um viés
econômico, Ranke com sua visão cientificista buscando a verdade histórica não era
rankeano, não impedindo também que seus seguidores o fossem.
A intenção de quem produz as fontes históricas deve
ser avaliada, pois Burke nos alerta “há possibilidade de falsificação das estatísticas
ou má interpretação das mesmas.” (p. 9) Isso nos traz um problema muito grande
a ser administrado, pois duvidar das fontes é um exercício que requer muito
conhecimento acerca do período estudado através de fontes que não podemos dar
como certas porque há intencionalidade na produção dos documentos que usamos
por fonte. Falácias tendenciosas com o intuito de enaltecer ou depreciar
pessoas ou povos são um jugo perigoso que o historiador deve saber se esquivar.
Burke nos atenta “a expansão do campo do historiador
implica o repensar da explicação histórica, uma vez que as tendências culturais
e sociais não podem ser analisadas da mesma maneira que os acontecimentos políticos.”
(p. 12) A crítica aos métodos de análise da historiografia rankeana e marxista nos
aponta essa nova história onde tudo é história, qualquer representação acerca
do Homem ou de suas relações é passível de análise historiográfica, abrangendo assim
períodos e locais que até então somente eram estudados por arqueólogos e antropólogos.
Se tudo é historia então independente das fontes que
serão utilizadas, sejam elas orais, escritas, arqueológicas, antropológicas, sociológicas,
geográficas, qualquer assunto vira, portanto objeto de estudo da história.
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
estudo dirigido François Hartog em A História de Homero a Santo Agostinho (2001: 145-151)
ESTUDO
DIRIGIDO
A
partir da leitura do texto de Cícero (A origem da História, as leis da História
e a eloquência do fórum) publicado por François Hartog em A História de Homero a Santo Agostinho (2001: 145-151) diga quais
são as principais características da historiografia romana antiga enunciadas
por Cícero. Para responder esta pergunta leve em consideração a afirmação de
François Hartog (2001: 216, A evidência da História: O que os historiadores
veem que diz que:
A
história romana é, com efeito em resumo demasiado rápido, uma história sem
história (no sentido grego de investigação), sem testemunhas, nem autópsia,
tampouco dois lados (Roma está inteiramente em Roma). Ela é concebida com opus
oratorium, de acordo Cícero, ou narratio, narrativa literária composta de
autores (scriptores), personalidades importantes que, ao julgarem necessário,
recorrem a fiadores ou autoridades (auctores).
A história romana foi escrita através de narrações
sem que se houvesse investigação. Para ser historiador se deveria apenas falar
a verdade, portanto a menor hipótese de uma falácia deveria ser afastada
imediatamente.
Apenas o ócio fazia-se necessário à escrita da história
em Roma, a leitura de escritos históricos gregos era de grande valia para
formar o estilo narrativo das crônicas. Porém as crônicas romanas não se
assemelhavam muito com as crônicas gregas, pois as gregas eram escritas por
quem realmente esteve nos relatos, enquanto as romanas eram escritas por aristocratas
que ao ouvirem a versão romana dos fatos os transcreviam.
Somente era observada a versão vencedora romana, os
outros povos sequer eram observados, assim como os aedos e primeiros
historiadores gregos faziam. A história romana em um sentido de análise a partir
dos gregos foi um retrocesso imenso, pois a história grega teve uma revolução
iniciada por Heródoto, a investigação e relato fidedigno do que se via,
enquanto os romanos apenas relatavam por escrito o que era relatado oralmente.
Apenas em casos especiais eram buscados os relatos
de quem realmente esteve nos fatos escritos, em geral não se fazia uma busca de
quem realmente participou do fato. A
história a princípio, teve seus primeiros registros eternizados na confecção de
anais. Esses anais tinham por objetivo preservar a memória dos atos oficiais para
dar publicidade aos feitos do imperador.
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