sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Análise de documentos Declaração de independência dos Estados Unidos da América do Norte


Análise de documentos
Um ex-escravo fala sobre a independência dos Estados Unidos
Declaração de independência dos Estados Unidos da América do Norte (4 de julho de 1776)
A declaração de independência, escrita por Jefferson, é um documento que expressa uma revolta para com a Inglaterra, que enrijecia suas cobranças às suas colônias na América, principalmente as 13 colônias, que chegavam a fazer concorrência aos produtos metropolitanos. A cobrança inglesa gerou revolta da população norte-americana, que tinha os mesmos direitos dos ingleses, e se via assim.
Com o fim da guerra dos sete anos, a busca por novas receitas fez a Inglaterra cobrar das 13 colônias impostos que inexistiam até então. A imposição de tributos, aliado ao nível de estudo dos colonos e seu conhecimento das idéias de alguns pensadores ingleses, os fez levantar-se contra a Coroa, buscando representatividade para justificar as cobranças. A elite colonial liderada por George Washington foi a busca de seus direitos, para fazer valer suas vontades em detrimento do sistema implantado.
O depoimento do ex-escravo, é datado de cerca de 100 anos depois, analisando a data de 4 de julho, onde há um desapontamento muito grande acerca da 'zombaria' que é expressa a partir de uma busca de 'liberdade hipócrita', visto que os escravos continuam escravos após a independência. Durante o depoimento é declarada uma falha já no primeiro artigo da declaração, onde diz: "que todos os homens nascem iguais."
O descontentamento desse negro é altamente explicado a partir da leitura do segundo artigo onde é declarado que o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade são direitos inalienáveis, porém como alguém que pertence a outra pessoa pode dizer que tem direito à vida? Sua vida nem mesmo lhe pertence, o direito à vida do escravo pertence ao seu senhor.
A partir da análise dos textos fica visível que a independência foi um movimento elitista, branco, feito pela elite, para a elite, usando o povo como massa de manobra. Pois os reflexos perduram mesmo passados mais de 200 anos com a segregação e a marginalização dos negros e os poucos nativos americanos que restaram d

economia colonial da América Portuguesa

Com base nos textos de Ciro Flamarion Cardoso, Fernando Novais e João Fragoso, discuta as interpretações e debates acerca da “economia colonial” da América Portuguesa.
Segundo Fernando Novais, o Antigo Sistema Colonial era uma conjuntura contradizente que levou-se à estagnação, onde as áreas coloniais não podiam auto estimular-se, dependiam dos impulsos da metrópole.  O estudo aponta os latifúndios exportadores como autossuficientes. O “exclusivo colonial” é a ideia mais interessante a ser levada em consideração nesse trabalho, segundo a qual a metrópole vende produtos europeus ao maior preço possível, mas não tão alto a ponto de serem inacessíveis e comprar os produtos coloniais ao menor preço, porém não tão baixos que impedissem a continuidade das atividades produtivas. A ideia de Antigo Sistema Colonial se baseia em acumular primitivamente capital durante o período mercantilista para o desenvolvimento do capitalismo, e com isso gerar um sentido para a colonização.
Para Ciro F. S. Cardoso, a ideia de Antigo Sistema Colonial de Fernando Novais é uma teoria generalizante e equivocada por faltar bases bibliográficas, portanto evasiva. Em sua proposta é necessário o estudo de caso para teorizar cada caso porque não faz-se possível reduzir macroestruturas coloniais em teorias generalizantes. Devem ser estudadas as formas livres de trabalho. O sistema capitalista não existia ainda durante o período colonial, pois a mão de obra escrava não caracteriza o capitalismo e sim um modo de produção escravista colonial. A extração de excedente não deve ser a única preocupação do historiador, e sim as estruturas internas das colônias em si mesmas na sua maneira de funcionar para que o quadro seja satisfatório, ou seja, completo.
Para João Fragoso, a produção colonial voltada para o comércio interno, que foi pormenorizada em trabalhos anteriores, foi extremamente importante para o rompimento com o sistema colonial. A acumulação primitiva não ocorria, pois os portugueses não tinham uma visão capitalista e sim de ostentação, para obterem status e manterem-no. A mentalidade portuguesa estava intrinsecamente ligada ao feudalismo e à manutenção da nobreza de parte da população e para a ascensão dos mercadores a esse estamento social. O estudo foi baseado no caso fluminense entre 1790 e 1830, em que são estudadas as relações comerciais coloniais internas, e o setor de abastecimento interno com natureza não escravista e não mercantil independente das flutuações de preços externas.
Referências
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980.
FRAGOSO, João. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1998.
NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial, 1777-1808. São Paulo: Hucitec, 1979.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

apropriação, prática e representação



A história é uma ciência verificável, portanto falível por natureza, pois ao analisar fontes, o historiador encontra nestas várias lacunas. A partir deste conceito, a análise de dois autores importantes da historiografia é necessária, Roger Chartier com apresentação de conceitos de apropriação, prática e representação. E Paul Veyne com uma explicação de como se faz história a partir da análise de seus predecessores.
Quanto à análise historiográfica, Paul Veyne apresenta que:
As lacunas das fontes não nos impedem de escrever algo a que se dá o nome de história... O mais curioso é que as lacunas da história fecham-se espontaneamente aos nossos olhos... devemos abordá-las providos de um questionário elaborado. O historiador pode dedicar dez paginas a um só dia e comprimir dez anos em duas linhas, um século pode passar em branco. O leitor confiará nele e julgará que esses anos são vazios de eventos. (p. 18)
Porém a apresentação diferenciada de eventos e datas pode ser proposital, de acordo com a intenção do historiador ou podem não o ser pela intenção dos autores das fontes utilizadas. Por esta razão, Carlo Guinzburg, na obra Mitos, Emblemas, Sinais sugere, a partir do método Morelli, que o historiador possa efetuar a análise “abarcando os pormenores mais negligenciáveis,” para então poder apresentar uma versão dos eventos mais próxima da ‘verdade.’ Para Veyne: “a verdade histórica não é nem relativa, nem inacessível,” (p. 27) porque “nenhum historiador descreve a totalidade, pois deve escolher o caminho que não pode passar por toda parte. Nenhum desses caminhos é o verdadeiro ou é a história.” (p. 30)
Os conceitos de apropriação e representação são complexos, porém sua compreensão pode ser simplificada, onde apropriação seria uma interpretação que não passa necessariamente por uma racionalidade, a prática é a utilização da “utensilagem mental" da época naquele local, e a representação é a expressão da apropriação, a qual se imputam valores à figura representada.
De acordo com Ronaldo Vainfas em Domínios da História, Chartier propõe “um conceito de cultura enquanto prática, e sugere para o seu estudo as categorias de representação e apropriação.” E continua sua análise alegando: “Representação, segundo Chartier, pensada quer como algo que permite “ver uma coisa ausente”, quer como ‘exibição de uma presença’, e conceito que o autor considera superior ao de mentalidade.”
Vainfas completa sua afirmação acerca de Chartier: “O objetivo da apropriação é ‘uma historia social das interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais’ que, insiste o autor, ‘são sociais, institucionais, culturais.’” Como a apropriação é a interpretação dos eventos, Lawrence Stone em um ensaio à Revista de História afirma que o historiador deve estar ciente dos riscos envolvidos na análise, enquanto usa-se da racionalidade para oferecer uma explicação plausível quanto ao objeto de estudo.poca e do local onde se faz a representaças, analisados de acordo com a mentalidade da
A “utensilagem mental” é o que Michel de Certeau chama de “lugar social”, que José Carlos Reis na obra A História Entre a Filosofia e a Ciência nos explica como: “a organização do pensamento e a ação, os quais existem em uma ‘situação’: um lugar e uma data – um evento. Por isso não é um princípio supra-histórico que organiza o processo efetivo.” Acerca desta teoria do “lugar social” Ciro Flamarion Cardoso em Uma Introdução à História, afirma: “a realidade social é mutável, dinâmica, em todos os seus níveis e aspectos.” Demonstrando a impossibilidade de repetição de cada panorama.
Por conta desta prática do ‘lugar social’ a história se apresenta como a análise de fontes que são a representação de eventos apropriados de diversas formas, analisados de acordo com a mentalidade da época e do local onde se faz a representação que pode ser falseada de acordo com a intencionalidade de seu autor, pois segundo Chartier “as representações são sempre determinadas pelos interesses dos grupos que as forjam” (p. 17). Com isso Veyne nos apresenta que “a história não trata dos eventos, mas daquilo que podemos saber deles.” (p. 18) Sobre isto, Peter Burke no livro A escrita da História mostra que: “a fonte histórica pode ser falseada, assim como a interpretação pode ser falha.”
Veyne apresenta que somente conhecemos as sociedades a partir do que elas escrevem sobre si, onde “cada evento é relatado de formas diferentes pelos diferentes atores e expectadores.” (p. 12) Enquanto, “um acontecimento jamais coincide com o testemunho de seus atores e testemunhas.” (p. 31) Para explicitar melhor, Burke, analisando relatos fotográficos entende que: “assim como os historiadores, os fotógrafos não apresentam reflexos da realidade, mas representações desta.”
De posse desses conceitos, a afirmação de que não se chega a uma verdade absoluta é correta, pois não se tem a verdade, mas versões da verdade, pois cada ator ou expectador se apropria da informação em uma dinâmica diferente, faz uso do equipamento intelectual disponível para sua realidade e representa o fato diferentemente, porque segundo Veyne: “A história não é lógica.” (p. 18) Portanto “há uma pluralidade de interpretações fundamentalmente equivalentes, mesmo que algumas delas possam distinguir-se pela sua fecundidade.” (p.25)
As obras se tornam complementares e auto-explicativas por tratarem da forma como o autor de história usam-se do ‘lugar social’ para fazer representações da sociedade que não necessariamente condizem com a ‘verdade,’ pois além de existirem diversas nuances e ângulos de visão dos eventos, as diversas lacunas presentes nas fontes podem ser utilizadas para que a análise seja manipulada de acordo com interesses que podem ser explícitos ou implícitos de acordo com a apropriação do historiador.
Bibliografia
VEYNE, Paul Marie. Como se escreve a História: Foucault revoluciona a história. Brasília, 1982: ed. Universidade de Brasília. Tradução: Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp.
CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. São Paulo, 1982: ed. Difel. Tradução: Maria Manuela Galhardo

segunda-feira, 5 de agosto de 2013


VEYNE, Paul Marie. Como se escreve a História: Foucault revoluciona a história. Brasília, 1982: ed. Universidade de Brasília. Tradução: Alda Baltar e Maria Auxiliadora Kneipp.
A história não é uma ciência e não tem muito a esperar das ciências; ela não explica e não tem método; melhor ainda, a historia, da qual muito se tem falado nesses dois últimos séculos, não existe. A história narra um romance real. (p.7-8)
Os eventos são humanos, os fenômenos são naturais. A história é uma narrativa de eventos. (p. 11)
Cada evento é relatado de formas diferentes pelos diferentes atores e expectadores. (p. 12)
Em nenhum caso, os eventos são apreendidos de maneira completa e direta, mas sempre por documentos e testemunhos, ou seja, por indícios. (p. 12)
A narração histórica situa-se para além de todos os documentos, pois nenhum deles pode ser o evento em si. (p. 12)
A história é filha da memória. (p.12)
No estudo de uma civilização, nos limitamos a ler o que ela mesma escreve sobre si. (p.12)
Para o historiador, mesmo que um evento se repita exatamente como ocorreu, se forem dois é o que importa, pois mesmo que ocorram repetidamente, os fatos nunca serão os mesmos (p 14)
A história permite-se ser enfadonha sem, por isso, desvalorizar-se. (p. 15)
O mais importante da análise é a verdade. (p. 15)
A história é um conjunto descontínuo, formado por domínios, cada um deles definidos pela freqüência própria. (p. 17)
Não é possível se chegar a uma história total, pois na análise se ganha de um lado perdendo de outro. (p. 17)
A história não trata dos eventos, mas daquilo que podemos saber deles. (p. 18)
A história não é lógica. (p. 18)
As lacunas das fontes não nos impedem de escrever algo a que se dá o nome de história... O mais curioso é que as lacunas da história fecham-se espontaneamente aos nossos olhos... devemos aborda-las providos de um questionário elaborado. O historiador pode dedicar dez paginas a um só dia e comprimir dez anos em duas linhas, um século pode passar em branco. O leitor confiará nele e julgará que esses anos são vazios de eventos. (p. 18)
A história não possui articulação natural. (p. 19)
A história não passa de uma pequena clareira no meio de uma imensa floresta. (p. 19)
Quanto mais se alarga o horizonte factual, mais ele parece indefinido. (p. 21)
Qualquer fato do dia a dia é indício de algum evento. (p. 21)
Cada época tem sua maneira de ver as coisas e a experiência profissional prova que a descrição dessas visões ofereceria ao pesquisador matéria suficientemente rica e sutil. (p. 22)
A História não existe, existem histórias de... (p. 23)
Há uma pluralidade de interpretações fundamentalmente equivalentes, mesmo que algumas delas possam distinguir-se pela sua fecundidade. (p.25)
É impossível fixar uma escala de importância que não seja subjetiva. (p. 25)
Os fatos têm uma organização natural que o historiador encontra pronta; o esforço do trabalho histórico consiste, justamente, em reencontrar essa organização. Dentro do assunto escolhido, essa organização dos fatos lhes atribui uma importância relativa. (p. 27)
Os fatos não existem isoladamente, mas tem ligações objetivas. (p. 27)
A verdade histórica não é nem relativa, nem inacessível. (p. 27)
A trama não se organiza, necessariamente, numa seqüência cronológica. (p.28)
Uma trama não é um determinismo, os detalhes tomam a importância relativa que exige o seu bom andamento. (p. 28)
O fato nada é sem sua trama. (p.28)
Em história é impossível mostrar tudo porque não existe fato histórico elementar nem partículas factuais. (p. 29)
A mesma situação espaço-temporal pode conter certo número de objetos diferentes de estudo. (p. 29)
Nenhum historiador descreve a totalidade, pois deve escolher o caminho que não pode passar por toda parte. Nenhum desses caminhos é o verdadeiro ou é a história. (p. 30)
 Um acontecimento jamais coincide com o testemunho de seus atores e testemunhas. (p. 31)
Os acontecimentos não são totalidades, mas núcleos de relações. (p. 32)
Já que tudo é história, a história será aquilo que escolhermos. (p. 33)
As escolhas constituem a história em suas fronteiras. Há relação de valores, julgamentos de valor. (p. 36)
A história se propõe a narrar as civilizações do passado e não salvar a memória dos indivíduos, ela não é uma coleção de biografias. Ela não se ocupa dos indivíduos, mas daquilo que oferecem de específico. (p.39)
É histórico tudo o que for específico, inteligível, exceto a singularidade que faz com que os indivíduos existam um por um. Uma vez afirmada a existência singular, tudo o que se pode dizer de um individuo possui uma espécie de generalidade. (p. 39)
Tudo é história, exceto o que ainda não se entendeu o porque. (p. 40)
O historiador leva à história um interesse particular. (p. 43)
A história é um domínio onde não pode haver intuição. (p. 43)
A história é a organização, por meio da inteligência, de dados que se referem a uma temporalidade. (p. 44)
A história não diz respeito ao homem em seu ser intimo e nem confunde o sentimento que tem de si próprio. (p. 44)
Em história explicar é explicitar. (p. 54)
A história necessita da compreensão para existir. (p. 61)
O ser e a identidade só existem por abstração. Já que a história só quer conhecer o concreto, não é possível satisfazer completamente essa pretensão, porém teremos feito muito se decidirmos jamais falar de religião ou revolução, a fim de que o mundo da história seja povoado exclusivamente de acontecimentos únicos e jamais de objetos uniformes. (p. 70)
Toda proposição histórica deve ser acompanhada de uma historicização prévia. A história não se escreve sobre uma pagina em branco, a historiografia é uma luta incessante contra nossa tendência ao contrassenso anacrônico. (p. 71)
Todos os seres históricos, sem exceção, mudam num mundo que muda e cada ser pode fazer mudar os outros e reciprocamente, pois o concreto é transformação e interação. (p. 72)
O modo de explicar a história é fazer entender. O historiador somente tem acesso a uma porção ínfima do concreto, a que lhe chega pelos documentos de que se pode dispor; para todo resto ele precisa tapar os buracos. (p. 73)
Os fatos têm causas, as causas nem sempre tem conseqüências. (p. 74)
As inferências tropeçam nos dados dos documentos, mas se as inferências não vão até o infinito, pelo menos elas vão muito longe. (p. 78)
A História é uma arte que supõe a aprendizagem de uma experiência. E é cheia de idéias gerais e regularidades aproximativas. (p. 80)
Não se deve crer que episódios se explicam por uma ou várias leis e pelo precedente. O sistema não é isolado e a cada momento são acrescidos ou retirados elementos que tornam impossíveis quaisquer formas de previsão da cadeia histórica. (p. 81)
Se uma relação causal pode ser repetida, nunca se pode afirmar quando e em quais condições ela se repetirá. (p. 82) Provavelmente o efeito será diverso ao original, pois o precedente trará experiências que serão, ou não, evitadas. Evita-se assim uma repetição cíclica da história.
A causalidade é relativa para quem analisa os fatos, cada análise pode oferecer uma causa negligenciada, ou simplesmente ignorada ou desconhecida pelo outro analisador. (p. 86-7)
A história pode analisar um problema tanto a partir das causas, quanto a partir do problema para se encontrar as causas.  (p 88-9)

Souza, Laura de Melo e. Religiosidade popular na colônia. In. O diabo e a terra de santa cruz. Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Companhia das letras, 1995. p. 86-150.
O texto demostra um distanciamento gigantesco entre os dogmas e a religiosidade vivida. Um bispado em cem anos, não cumprimento das ordens eclesiais, ceticismo da população, padres que ignoravam as ordens do santo Ofício. Coroa portuguesa como patrona das missões católicas e instituições eclesiásticas em suas colônias, com os jesuítas como organizadores do catolicismo.
Havia relações politicas entre padres e a Igreja, tanto que no século XVII, Roma restringe a ação do padroado criando a congregação para a propagação da fé.
Diálogo com Gilberto Freyre Casa Grande- Senzala-Capela, especificidade familiar e sincretismo herético de Carlo Guinzburg.
O catolicismo era religião de fachada. Os cultos tinham traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturados condenando os colonos ao sincretismo religioso. Inconsciência religiosa, deturpação, desconhecimento completo dos dogmas, paganismos, aprendizagem catequética por memorização de poucos rudimentos religiosos, que não eram entendidos e após alguns anos esquecidos.
Deus era objeto de dúvidas e indagações. Havia descrença em Deus generalizada, utilização da fé como fornecedora de bens materiais, fornecedora de vantagens concretas ou tratamento de todos os males, como subterfúgio ao abarcamento de seus interesses, cometendo blasfêmias de todas as maneiras, até mesmo pelo mau viver dos padres. Muitos párocos vivam em regime de concubinato, eram sodomitas, ébrios, envolviam-se em brigas, rixas, jogatinas, crimes de todo tipo, desacatavam aos fiéis.
Os fiéis eram impacientes devido a curta duração da vida. A fé constantemente era posta em xeque, ‘justiça divina duvidosa e falha’. “Se Deus era o Criador a ser adorado, por que fizera a desigualdade social?” (p. 111).
Indistinção entre sagrado e profano traduzida na identificação e devoção aos santos. Familiarização com os santos. Crença judaica atrelada ao ceticismo. Explicação para tudo em Deus ou no diabo. Os colonos não tinham base científica que lhes explicasse os fenômenos, portanto tudo era explicado através de forças espirituais, sobrenaturais, metafísicas.
Completo desrespeito e desacato aos símbolos e ritos religiosos católicos. Havia muita ambiguidade, o que se ama às vezes se odeia, por uma economia religiosa de toma lá dá cá, quando se alcança a graça o amor se manifesta ao santo, quando não se alcança o esperado, xinga, atira-o nos cantos, odeia-o.
Demonização das ações humanas de ‘má vontade’ e divinização da aquisição de bens materiais. Tudo podia ser explicado pelo sagrado ou profano, pois sem uma razão sustentada na ciência, a Igreja dominava a mentalidade popular, porém com suas limitações conquanto à fé do povo. Menção ao padre Antonil como divinizador do produto mercantil gerador de lucros e bens.
Parecer do resenhista
A religiosidade colonial era extremamente falha em relação aos dogmas e preceitos religiosos católicos vigentes, mesmo porque a distância da Europa dificultava muito a repressão àqueles que se rebelassem contra a ordem religiosa. Mesmo os que eram pegos em atos heréticos às vezes não eram punidos por haver apenas um bispado em toda colônia durante mais de um século.
O carnaval também foi uma invenção dessa época, séc. XVI, onde os portugueses ‘fervorosos’ no catolicismo, quando defrontados com a quaresma, quarenta dias de privação de todos os prazeres carnais, montaram no calendário uma semana para extravasar nos deleites possíveis.
Indico este livro a todos que tenham interesse em conhecer um pouco sobre como os colonos se atinham às coisas sagradas, mediante a religiosidade vigente, o catolicismo.
Luiz Filipe de Alencastro
O trato dos viventes
O autor começa com o poder exercido por Carlos V, rei da Espanha, sobre a colônia peruana, que a partir de 1542-43 proclama as leyes nuevas reconhecendo a soberania dos índios, com o propósito de afirmar-se como emperador de muchos reyes. Porém os índios às vezes revoltavam-se contra a tributação da coroa, porém logo era contida a revolta e retomava-se a tributação.
Angola apresentou um conflito político semelhante, porém a Coroa portuguesa bate de frente e em 1551 concede como capitania hereditária a Paulo Dias Novais, neto de Bartolomeu Dias. Mas após o desastre de Alcácer Quibir (1578), o donatário concede aos conquistadores e jesuítas terras, nativos e rendas denominados amos. Nesses havia cobrança de tributos dos nativos (amumbundos) que, na maioria das vezes eram pagos com escravos que eram exportados para a América.
Ficando claro a Portugal que Angola não tinha minas de prata e que o trafico de escravos seria a principal atividade econômica, a coroa retoma a colônia em 1592 e determina um governador que, logo de cara, proíbe os amos. Mas essa medida é rechaçada logo de cara e os conquistadores, junto com os jesuítas, o expulsam em 10 meses. Porém, logo em seguida o rei de Portugal nomeia outro governador, que era “pau-mandado” dos jesuítas, que volta atrás na proibição dos amos. Anos depois a Coroa portuguesa toma o comando, e embora houvesse conflitos, Angola entra de vez no comércio transatlântico de escravos.
Angola é o principal porto exportador de escravos para a América nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, enquanto o Brasil é o maior importador de escravos no mesmo período.
Em Moçambique, o comércio com as Índias faz, porto obrigatório para seguir viagem na ida e na volta, pois enquanto havia monções, os navios ficavam ancorados. Os navios iam atrás de temperos, especiarias, tecidos e “em busca de ‘negócios da China’ navegavam contra vento, contra monção, contra maré, contra tempestade e contra a razão” (p. 15).
Em Moçambique, a colonização se deu de forma muito superficial e frágil. Há um império pré-europeu chamado monomotapa e os nativos chamados amambo. Num primeiro momento há um extermínio, mas os portugueses têm de reconhecer a autoridade do monomotapa sobre os nativos, com isso os primeiros detentores de domínios (prazeiros) são confirmados pelos nativos. Os prazeiros pagam tributos em ouro à Coroa e recebem os tributos dos nativos em forma de marfim, milho ou um a renda em trabalho, o mussoco. Ao monomotapa era pago pelos colonos um tributo em tecidos, a fatiota. Os escravos moçambicanos eram traficados para o golfo pérsico, pois os portugueses deviam pagar suas dívidas com os otomanos, e em suas relações com o oriente.
A partir de 1626, os domínios deixam de ser hereditários, tornando-se prazos da Coroa, onde eram herdados apenas em linha feminina. Para tanto, a herdeira deveria casar-se com um morador nascido em Portugal, um reinol, ou com um filho de reinol.
Ao assumir o posto, os capitães e governadores pagavam ao monomotapa o curva, certa porção de tecidos. No início do sec. XIX, o não pagamento do curva provoca uma insurreição, de 1806 a 1826, que só termina com o pagamento do mesmo. Esse esquema funciona muito até o começo do século XIX, quando os negreiros brasileiros operam a atlantização de Moçambique.


Com base nos textos de Ciro Flamarion Cardoso, Fernando Novais e João Fragoso, discuta as interpretações e debates acerca da “economia colonial” da América Portuguesa.
Segundo Fernando Novais, o Antigo Sistema Colonial era uma conjuntura contradizente que levou-se à estagnação, onde as áreas coloniais não podiam auto estimular-se, dependiam dos impulsos da metrópole.  O estudo aponta os latifúndios exportadores como autossuficientes. O “exclusivo colonial” é a ideia mais interessante a ser levada em consideração nesse trabalho, segundo a qual a metrópole vende produtos europeus ao maior preço possível, mas não tão alto a ponto de serem inacessíveis e comprar os produtos coloniais ao menor preço, porém não tão baixos que impedissem a continuidade das atividades produtivas. A ideia de Antigo Sistema Colonial se baseia em acumular primitivamente capital durante o período mercantilista para o desenvolvimento do capitalismo, e com isso gerar um sentido para a colonização.
Para Ciro F. S. Cardoso, a ideia de Antigo Sistema Colonial de Fernando Novais é uma teoria generalizante e equivocada por faltar bases bibliográficas, portanto evasiva. Em sua proposta é necessário o estudo de caso para teorizar cada caso porque não faz-se possível reduzir macroestruturas coloniais em teorias generalizantes. Devem ser estudadas as formas livres de trabalho. O sistema capitalista não existia ainda durante o período colonial, pois a mão de obra escrava não caracteriza o capitalismo e sim um modo de produção escravista colonial. A extração de excedente não deve ser a única preocupação do historiador, e sim as estruturas internas das colônias em si mesmas na sua maneira de funcionar para que o quadro seja satisfatório, ou seja, completo.
Para João Fragoso, a produção colonial voltada para o comércio interno, que foi pormenorizada em trabalhos anteriores, foi extremamente importante para o rompimento com o sistema colonial. A acumulação primitiva não ocorria, pois os portugueses não tinham uma visão capitalista e sim de ostentação, para obterem status e manterem-no. A mentalidade portuguesa estava intrinsecamente ligada ao feudalismo e à manutenção da nobreza de parte da população e para a ascensão dos mercadores a esse estamento social. O estudo foi baseado no caso fluminense entre 1790 e 1830, em que são estudadas as relações comerciais coloniais internas, e o setor de abastecimento interno com natureza não escravista e não mercantil independente das flutuações de preços externas.
Referências
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980.
FRAGOSO, João. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-1830). 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1998.
NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial, 1777-1808. São Paulo: Hucitec, 1979.